Bem-estar

Vacina de RNA mensageiro: o que os documentos de Fauci revelam

Por Dra. Maikelli Simes · · 7 min de leitura
Vacina de RNA mensageiro: o que os documentos de Fauci revelam

Nas últimas semanas, vazaram 1.100 páginas de documentos e o diário pessoal de Anthony Fauci, o médico que liderou a resposta dos Estados Unidos à pandemia. Ele foi convocado a depor no Senado americano e respondeu 111 perguntas com o mesmo silêncio, amparado no direito constitucional de não se incriminar. Esse episódio reacendeu uma discussão que eu carrego desde 2020, sobre a vacina de RNA mensageiro, o tratamento precoce e o motivo de eu nunca ter defendido vacinação igual para todo mundo.

Escrevo esse texto porque fui uma das médicas que questionou publicamente essas decisões na época, inclusive na câmara de vereadores de Chapecó, e fui chamada de negacionista por isso. Não é sobre estar certa. É sobre entender o que aconteceu para que você possa tomar decisões melhores sobre a sua saúde e a da sua família daqui pra frente.

O que aconteceu com Anthony Fauci no Senado americano

Fauci é médico, formado na década de sessenta, e liderou por décadas o departamento de doenças infectocontagiosas dos Estados Unidos, desde a época do HIV. Na pandemia, foi a voz por trás de decisões centrais: o uso obrigatório de máscara, o isolamento geral da população, o fechamento do comércio e a orientação de que a ivermectina e a hidroxicloroquina não funcionavam como tratamento precoce. Essa última posição abriu caminho para que a vacina de RNA mensageiro fosse aplicada diretamente na população mundial, sem o tempo de teste que uma vacina normalmente exige.

Em 2024, o presidente Joe Biden concedeu a Fauci um perdão amplo, isentando-o de qualquer responsabilidade por suas ações na pandemia. Agora, com os documentos e o diário vazados, o Senado o convocou para explicar por que financiou pesquisas em um laboratório em Wuhan, na China, com verba destinada ao combate de doenças infecciosas, e por que validou medidas como o distanciamento de dois metros sem um estudo que sustentasse esse número. Em todas as 111 perguntas, ele invocou o direito ao silêncio. Um silêncio, quando não há nada a esconder, costuma ser mais fácil de explicar do que de guardar.

O financiamento do laboratório de Wuhan

Os documentos apontam que parte desse financiamento foi destinada a pesquisas de ganho de função, uma técnica que torna um vírus mais transmissível e mais capaz de gerar doença. O coronavírus, antes disso, era um vírus que circulava sem grande repercussão. Essa é uma das acusações mais graves levantadas contra Fauci, e ainda está sendo apurada, mas explica por que tantos pesquisadores, no mundo todo, questionam a origem da pandemia até hoje.

Por que o tratamento precoce foi descartado

O Senado reuniu mais de 70 artigos, envolvendo cerca de 200 mil pessoas, mostrando redução na gravidade da infecção viral com o uso de ivermectina. Fauci classificou isso como não científico. Hoje, o acesso a boa parte desses artigos é restrito. Um dos estudos mais citados para banir a cloroquina do tratamento precoce, feito em Manaus, usou uma dose muito acima da que era proposta para essa finalidade, o que hoje é apontado como um erro metodológico grave. Se o tratamento precoce tivesse sido validado, a vacina de RNA mensageiro provavelmente não teria sido aplicada em tanta gente, em tão pouco tempo.

Máscara para todos e isolamento total: o que a diferença importa

Isolar quem está doente funciona, e a medicina sabe disso há décadas. Isolar o mundo inteiro foi uma decisão diferente. Usamos máscara mesmo estando sozinhos, na rua ou dentro do próprio carro. Fechamos o comércio por completo, o que tirou a renda de famílias inteiras. Crianças pequenas passaram meses sem contato social, e isso apareceu depois como atraso no desenvolvimento da fala em muitos casos. Aqui em Chapecó, o comércio não ficou fechado por tanto tempo, o que amenizou parte desse impacto.

Vacina ou terapia gênica: qual é a diferença

Vacina, no sentido clássico, é dar ao corpo um pedaço do vírus, ou o vírus enfraquecido, para que o sistema imunológico aprenda a reconhecê-lo e se defender. A Coronavac seguiu esse princípio. A vacina de RNA mensageiro funciona de outro jeito: ela entrega à célula um comando genético para produzir a proteína Spike, e é essa proteína, produzida pelo próprio corpo, que ativa a resposta imune. Foi dito, no início, que essa proteína ficaria restrita ao local da aplicação. Depois, ela foi identificada em outros órgãos, incluindo o coração. É uma tecnologia nova, testada na própria população durante a pandemia, e é por isso que eu trato a vacina de RNA mensageiro como algo que exige mais cautela do que uma vacina tradicional.

Por que eu não acho que toda vacina serve para todo mundo

Não sou contra vacina. Eu e minha filha somos vacinadas, mas seguimos um calendário individualizado. Ela é alérgica a ovo, e boa parte das vacinas é produzida usando esse meio de cultura, o que exigiu adaptar o esquema dela com acompanhamento médico, para evitar risco de choque anafilático ou de desencadear uma doença autoimune.

Isso não é exceção rara. Toda vacina tem efeito colateral possível: febre pós-vacinal, e em casos mais raros, a síndrome de Guillain-Barré, uma reação autoimune que pode paralisar os membros inferiores. Já uma vacina contra dengue precisou ser retirada do mercado brasileiro depois de se mostrar associada a quadros mais graves da doença em parte da população. E existem poucos estudos duplo-cego, comparando a vacina com placebo, para boa parte do calendário vacinal em uso hoje. Questiono também se aplicar várias vacinas ao mesmo tempo em bebês, com o sistema imunológico ainda imaturo, tem relação com o aumento de efeitos colaterais que temos visto. Não é uma resposta fechada, mas acho que é uma pergunta que merece ser feita, e não descartada de largada.

O oposto, não vacinar nada, também não é a resposta. O ponto não é escolher um extremo, é avaliar caso a caso, com um profissional que conheça o histórico da sua família.

Se você já tomou a vacina, o que fazer agora

Muita gente me pergunta isso. A resposta começa por tirar o peso do medo: a decisão foi tomada em um contexto de urgência, e a maioria de nós agiu assim. Hoje, quem teve a infecção pelo coronavírus e quem tomou a vacina foram expostos à mesma proteína Spike, então estamos, de certa forma, no mesmo barco.

Não existe um remédio específico para eliminar a proteína Spike do corpo. Existem substâncias com evidência preliminar, ainda em estudo, para reduzir a inflamação relacionada a ela, como glutationa, N-acetilcisteína e quercetina, mas nenhuma delas deve ser usada por conta própria: a indicação e a dose dependem de avaliação médica individual. O que realmente sustenta a sua defesa é a base: vitamina D e complexo B em níveis adequados, boa saúde intestinal, sono e alimentação regulados. Na primeira semana da pandemia, orientei meus vizinhos a cuidar exatamente disso, e depois vieram estudos mostrando que níveis de vitamina D acima de 30 se associaram a menos casos graves de covid, enquanto a maioria das internações em UTI envolvia níveis abaixo de 15.

Como decidir sobre o calendário vacinal da sua família

Antes de vacinar, converse com um médico disposto a olhar para o seu histórico de saúde e o da sua família, não só para um protocolo padrão. Alergias, doenças autoimunes na família e a idade da criança mudam o que faz sentido aplicar e quando. Essa conversa vale tanto para as vacinas do calendário infantil quanto para reforços em adultos.

Perguntas frequentes

Anthony Fauci é responsável pela pandemia?

Os documentos vazados e o depoimento no Senado levantam essa possibilidade, especialmente pelo financiamento de pesquisas de ganho de função em Wuhan e pelo silêncio diante das 111 perguntas feitas a ele. A apuração ainda está em andamento nos Estados Unidos.

A vacina de RNA mensageiro é segura?

Ela reduziu a gravidade da covid em muita gente, mas é uma tecnologia nova, com menos tempo de estudo do que uma vacina tradicional, e efeitos colaterais documentados, incluindo a presença da proteína Spike fora do local de aplicação. Segurança, nesse caso, depende de avaliar o histórico individual antes de decidir.

Preciso seguir o calendário vacinal completo do meu filho?

Não existe uma resposta única. O calendário padrão é pensado para a população em geral, mas alergias, histórico familiar de doença autoimune e a maturidade do sistema imunológico da criança podem mudar o que faz sentido aplicar. Essa decisão deve ser tomada com acompanhamento médico, não sozinha.

O que fazer se eu já tomei a vacina e estou preocupada?

Não há motivo para viver com medo retroativo, porque a decisão já foi tomada. O que ajuda de fato é cuidar da base da imunidade: vitamina D, saúde intestinal, sono e alimentação. Suplementos específicos só devem ser usados com indicação e dose definidas por avaliação médica.

Aviso: este conteúdo tem caráter educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico. Em caso de sintomas, procure avaliação profissional.